O "arrastão" em Carcavelos ou a onda de violência em que degenerou uma festa africana no Monte Abraão, em Queluz, são acontecimentos diferentes mas representam a cara e a coroa de um mesmo fenómeno de exclusão social. São pessoas revoltadas pelas condições degradadas em que vivem, por uma escola que exclui quem não se encaixa nos parâmetros, por fluxos migratórios mal conduzidos, pela ausência de autoridade, nomeadamente dos pais e da escola.
Para o criminologista Barra da Costa, "basta uma faísca para que aquelas pessoas demonstrem a sua revolta", sejam adolescentes, jovens ou adultos. Acrescenta que a única admiração é de só agora ter atingido tais proporções.
"Os percursos de vida destas crianças parecem aliás confirmar a ideia de que a pobreza se reproduz de geração para geração, isto se considerarmos que a sua fraca escolarização e qualificação profissional, a precariedade dos seus rendimentos e as condições habitacionais em que sobrevivem representam desvantagens que, numa sociedade estratificada, com dificuldade poderão ser ultrapassadas de modo a quebrar o ciclo reprodutivo da pobreza e da marginalização, conclui João Sebastião, no livro Crianças de Rua, Modos de Vida Marginais na Cidade de Lisboa. Acompanhou menores das zonas ocidental (Buraca, Amadora, Benfica) e oriental da capital (Chelas, Sacavém, Musgueira), da Margem Sul e Algarve.
Os jovens não deixam de aspirar a bens de consumo que outros da mesma idade, o que obtêm através de práticas marginais. Uma "arte" para a qual foram socializados na rua, sendo o gang um elemento integrador na sociedade.
E se a escola e a família falharam, o sistema de promoção e protecção das crianças e jovens em risco não "está a conter e a evitar que os paradelinquentes entrem na criminalidade", conclui um estudo do Observatório Permanente da Justiça, num trabalho coordenado por Conceição Gomes sobre a Lei Tutelar Educativa.
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