Na sua intervenção no Campus FAES, na localidade madrilena de Navacerrada, o senador italiano considerou que na Espanha "o ataque foi levado a cabo contra a ideia mesma do matrimónio com uma manobra de pinças: por uma parte o divórcio rápido, por outra o matrimónio entre homossexuais". Desta maneira, disse o político, "uma bonita porção de nossa identidade voou".
Segundo Pêra, "é falso que se trate de "conquistas civis" ou de medidas "contra as discriminações" ou de "ampliações da igualdade". Trata-se, mas bem, do triunfo do laicismo que pretende transformar os desejos, e às vezes inclusive os caprichos, em direitos humanos fundamentais".
Depois de indicar que o laicismo, longe do ideal de respeito, leva a cabo experiências de engenharia social, procurando trocar à sociedade a sua maneira, Pêra opinou que na Espanha, o laicismo tomou como alvo o matrimónio homossexual.
Crise de identidade e relativismo cultural
Segundo Pêra, o velho continente experimenta uma "perda progressiva" da sua identidade devido ao "relativismo cultural" imperante cuja linguagem é o do “politicamente correcto” e que hoje em dia se converteu numa “neo-língua”.
O Presidente da Câmara Alta italiana opinou que Ocidente, "pensa que se afirmasse os seus próprios princípios e valores e mostrasse a força da sua própria identidade, então seria um Ocidente arrogante, desprezível". "E como o Ocidente pretende pelo contrário ser aberto e dialogante com todos, antes que defender-se a si mesmo, debilita-se e esconde a sua própria identidade", acrescentou.
Deste modo, o senador italiano disse que "convertemo-nos em objectivo, enquanto ocidentais não pelo que fazemos, mas sim pelo que somos". "A nossa culpa não é actuar, mas ser. Noutros termos, para os terroristas, a nossa culpa é a nossa identidade", acrescentou Pêra, lamentando que "diante do fundamentalismo e o terrorismo islâmico, difundiu-se no Ocidente um sentido de resignação e inclusive de rendição"..
Leigo e laicista
Para o legislador italiano, a Europa não entende a diferença entre leigo e laicista. "Leigo é aquele que não se adere a uma religião ou confissão específica, laicista é aquele que, no nome do laicismo do Estado e da política, impõe uma religião própria de Estado e uma religião própria política”.
A Europa é "especialmente vítima" deste laicismo "anti-histórico e perigoso", e ressaltou que "esconder a nossa tradição é, além de uma comemoração ao laicismo, também um passo em falso. Aqueles que o têm feito já estão a pagar o preço", advertiu.
Por isso, insistiu Pêra na necessidade de que a Europa recupere a sua identidade. "Somos cristãos pelos valores que professamos e os princípios que nos acreditamos. Somos cristãos também quando proclamamos a separação entre Estado e Igreja e entre política e religião. Somos cristãos e mais precisamente judaico-cristãos por história embora não o sejamos pela fé", apontou o senador.
Depois de lamentar que Ocidente está “doente” de relativismo e imerso numa grave crise de identidade, Pêra pediu, especialmente à Europa, para voltar a começar desde a base recuperando os seus princípios. “Só quem tem uma identidade definida é um sujeito com objectivos”, acrescentou.
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