Não é coisa nossa (só das mulheres)
Por: Marta Rodríguez
Acabo de participar num congresso sobre a mulher. O tema da mulher e o trabalho acabou aquecendo completamente o ambiente. Esgrimiram-se dados e aportações interessantes. E, é escusado dize-lo, saíram no dialogo os constantes problemas já tão manuseados pelos peritos: a necessidade das licenças de maternidade, a equidade nos salários, os serviços de creches…

Não sei se pelo apaixonado do debate ou pela sonolência que fazia minhas pálpebras assom-brosamente pesadas, mas, de repente, tive a sensação de que a mulher actual parecia-se mais do que nunca a um malabarista de circo: esse artista que com habilidade mágica lança 7 bolas ao ar e é capaz de enganar a tirânica lei da gravidade com a agilidade dos seus movimentos. Hoje a mulher deve ser a melhor profissional, com o mesmo reconhecimento, ordenado e exi-gências laborais que um homem; deve ser mãe, dedicar tempo a sí mesma e às suas amiza-des; cultivar-se e viajar e, no possível, faze-lo evitando o stress e seus sintomas. E, como nos-so amigo o malabarista, acometer esta empresa quase titânica ela só, contra todos e apesar de todos.

No entanto, a vida não é um circo. No desafio de compatibilizar trabalho e família, a mulher não deveria ser uma personagem solitária. E o homem também não. Apesar do meu sono durante o congresso, anotei algumas ideias sobre este ponto:

Primeira: não é a mulher a que teimosamente trata de imiscuir-se no mundo do trabalho. A sua aportação é um bem necessário para toda a sociedade. Portanto, os governos, as empre-sas, as leis e todas as entidades públicas deveriam favorecer a sua inserção neste âmbito.

Segunda: a família também não é um capricho das mulheres, que necessitem ter filhos para satisfazer os seus vazios emocionais. A família é a célula básica da sociedade. Aos executivos que protestam quando suas empregadas engravidam haveria que perguntar-lhes: quem é que pensam eles que vai pagar as suas pensões quando forem velhos, senão o fruto das suas actuais inquietações.

Assim, compatibilizar trabalho e família não é um problema das mulheres: é um problema de todos. Todos somos responsáveis por criar as estruturas necessárias para que os pais e as mães possam dedicar seu tempo mais precioso à família. Assim fica a ganhar a sociedade inteira: as empresas porque seus empregados trabalham com mais gosto ao serem tratados mais humanamente, os filhos que recebem o atendimento de que tanto necessitam, o casal que cresce por meio do compromisso e a corresponsabilidade num projecto comum…

Há quem comece a estar farto de ouvir falar do “desafio da mulher” do século XXI. Mais do que de um desafio da mulher trata-se de um desafio de todo o conjunto social, que deve procurar que a vida seja cada vez mais humana para todos. Neste mundo, que se jacta de possuir todas as comodidades e meios para tudo, ninguém deveria ser “malabarista da vida”. Para consegui-lo, é necessário equacionar novamente muitos esquemas e utopias oxidadas.
 
Fonte: Mujer Nueva em 18/05/2004

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