Devo dizer, antes de mais, que ainda não vi o filme de Mel Gibson e aceito perfeitamente que algumas pessoas prefiram não vê-lo, e se sintam demasiado impressionadas com o modo crú como as imagens retratam (pelos vistos com rigor e seriedade) as últimas doze horas da vida de Cristo aqui na terra. Só gostaria de fazer duas observações e uma pergunta.
A primeira observação é a de que não faz sentido a polémica suscitada por se temer que a representação daqueles factos históricos possa alimentar anti-semitismos. Ali aparecem actuações más de judeus (incluídos alguns Apóstolos), assim como também actuações más de romanos, mas não podemos esquecer que Jesus é judeu, assim como Nossa Senhora e as Santas mulheres, e S. João, e José de Arimateia, e Simão de Cirene, etc. E o significado profundo de tudo o que aconteceu tem muito mais que ver com os nossos pecados do que com as circunstâncias históricas — que como tal estão ultrapassadas — que levaram àquilo tudo.
A segunda observação é, precisamente na sequência do significado profundo do que aconteceu, que há dois mil anos que a Igreja celebra esse acontecimento, não tanto para se deter nos factos passados mas naquilo que misteriosamente não passa, porque foi um acto eterno de Deus, fora do espaço e do tempo, e sempre actuante e salvífico: o seu acto de amor, de entrega total por nós. E fá-lo, para usar uma terminologia clássica, de modo «incruento», através dos símbolos eucarísticos do pão e do vinho. Separados, para significar o derramamento do sangue; como alimento, para significar que se nos dá para alimentar a nossa participação na sua Vida eterna. Cristo não nos deu a sua morte, mas a sua Vida.
A pergunta que me vem ao espírito, ao ver o «escândalo» produzido em algumas pessoas pela violência das imagens é a seguinte: esse escândalo é pela forma como essas imagens são apresentadas, ou pelo seu significado? Essas pessoas não querem enfrentar-se com elas, ou com o que elas significam? E faço esta pergunta porque ainda há poucos dias foi noticiado um «escândalo» semelhante devido à violência de umas imagens que simplesmente documentavam um aborto realizado nos Estados Unidos. Um aborto entre tantos milhares que se realizam em tantos países ao abrigo de leis que alguns ainda acham pouco «liberais». Só que esse «escândalo» não veio da parte de quem, abominando essa violência, se opõe a esse modo de resolver os problemas, por vezes dramáticos, de tantas mulheres. O escândalo veio precisamente dos que defendem mais abortos e mais livres. Daqueles concretamente que acusam os que se lhes opôem de… «hipócritas». Está tudo dito. |