NA SEGUNDA-feira passada, a distinta historiadora Gertrude Himmelfarb proferiu no American Enterprise Institute, em Washington, uma palestra intitulada «Três caminhos para a modernidade: os iluminismos britânico, americano e francês». O tema tinha já sido introduzido por Himmelfarb numa palestra na Academia Britânica, no ano passado. E um livro está anunciado para Agosto, pela Knopf, de Nova Iorque.
Que houve pelo menos três, e não um, iluminismos é ainda hoje relutantemente aceite por muitos defensores e críticos das chamadas «Luzes». Gertrude Himmelfarb explica porquê: as mensagens são muito diferentes e, em aspectos cruciais, mesmo contraditórios - sobretudo entre o britânico e americano, de um lado, e o francês, de outro.
Himmelfarb atribui ao iluminismo britânico uma «sociologia da virtude»; ao americano, uma «política de liberdade»; e, ao francês, «a ideologia da razão».
Os britânicos, ao contrário dos franceses, não tiveram «filósofos», mas «filósofos morais». No centro das suas preocupações estava o «sentido moral» ou o «sentido do certo e do errado» que estava implantado na natureza humana.
Eles não viam a moral como decorrente da filosofia, mas da natureza humana; isso levava-os a confiar no homem comum e a desconfiar das ambições dirigistas dos filósofos ou de qualquer poder político centralizado; também não eram inimigos da religião em nome da razão.
Para o iluminismo francês, pelo contrário, a razão era o ponto de partida e de chegada para um mundo novo. «O que a Graça é para os cristãos, a razão é para os filósofos», escrevia a famosa Enciclopédia. E esse era o ponto de partida para o principal empreendimento deste racionalismo: a guerra contra a religião e o homem comum.
Himmelfarb recorda o profundo desprezo dos «philosophes» pelo homem comum, o seu total desinteresse pela educação popular, um tema crucial para os britânicos. Um aspecto inseparável dessa arrogância era a suspeição relativamente ao interesse dos indivíduos, e exaltação dessa misteriosa entidade a que os franceses chamaram «vontade geral».
Himmelfarb recorda que foi Diderot, e não Rousseau, quem introduziu o conceito e o identificou com a «razão colectiva». Esta, por contraste com o discernimento dos homens comuns, seria realizada ou entronizada na pessoa do déspota esclarecido. Daí a enraizada simpatia do iluminismo francês pelo dirigismo estatal, em flagrante contraste com a defesa britânica e americana dos princípios do governo limitado e da separação de poderes. Daí, também, o florescimento da filantropia privada em Inglaterra e na América, em contraste com a sua pobreza em França.
Himmelfarb considera que a filosofia moral britânica era, como diria Tocqueville noutro contexto, «não muito elevada, mas clara e segura; não dirigida a virtudes extraordinárias, mas a virtudes comuns e dissuasora de grossa depravação». Era acima de tudo, «uma filosofia apostada em alimentar, pelo hábito mais do que pela vontade, uma cidadania temperada, moderada, de vistas largas e capaz de autocontrolo».
Talvez as observações de Himmelfarb não estejam tão distantes do nosso tempo como poderia parecer. Mas isso compete a cada um avaliar.
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