Família, riqueza em perigo
Por: D. António Marcelino
A maior riqueza de Portugal são as suas famílias. Se esta riqueza deixar de o ser, a desagregação social é inevitável. Aqui e ali, com muitas vítimas pelo meio, já há sinais visíveis de destruição do tecido familiar, pondo em perigo, a seu tempo, a consistência e o futuro da nossa sociedade.

Perante esta realidade, não falta quem pense que a família tem um valor relativo e que, pessoas sem uma família normal que lhes sirva de suporte, podem perfeitamente ser felizes e, porventura, viver com menos problemas.

A vida diz-me, todos os dias, que a maior pobreza que pode atingir uma pessoa é não ter família. Ninguém pode viver sem se sentir amado. A família é o espaço normal da inter-relação que exprime e gera amor gratuito e incondicional entre os seus membros e que não deixa que o clima humano arrefeça, a ponto de a existência diária se tornar um pesadelo.

Tudo isto parece indiscutível. Na prática, porém, as coisas não são tão claras. Por respeito a opções pessoais, por vezes loucas, irresponsáveis e até aberrantes, fazem-se leis que fragilizam cada vez mais as famílias que o querem ser. Os direitos sociais da família estão ainda longe de responder às necessidades concretas que afectam os aglomerados familiares. E, se há pessoas com deficiências graves no seu seio, as coisas complicam-se e de que maneira. As pressões corporativas, com interesses próprios e de classe, roubam a ocasião e o valor de intervenção à família em aspectos que lhe dizem directamente respeito e que ela não delegou, nem em pessoas, nem em grupos. Às associações de pais, em assuntos que são fundamentalmente seus, não se lhes dá voz, porque o poder, em muitas coisas, é prepotente e se arvorou, sem apelo, em dono das pessoas e decisor das suas vidas e opções.

Há pais de família, presos e esquecidos, a aguardar julgamento e, em casa, crianças a definhar de fome e de esperança, porque, em Portugal, nem os presos são iguais. Não fora tantas vezes a solidariedade da comunidade e a partilha voluntária de vizinhos e a desgraça seria ainda maior.

As famílias portugueses estão cada dia mais vulneráveis. Muitas vezes, por culpa própria. Mas, também, por força de leis à revelia do bom senso, porque as restrições orçamentais só contemplam alguns grupos de cidadãos, porque a onda avassaladora do consumismo as narcotiza e aliena, porque, com todas as licenças, se multiplicam, como cogumelos, espaços ditos de diversão, mas que são antes de destruição de lares e de bens.

Há que aprender a ser hoje a família de sempre, com os valores que lhe são próprios e a missão que lhe cabe e que não pode alienar. Mas, nesta tarefa, ou se empenham todos os que dão valor à família, ou ninguém resistirá à teimosia de querer construir, quando, ao seu lado, os mais fortes apostam em destruir. O Ano Internacional da Família pode ajudar a clarificar situações e a tomar a sério problemas que cada dia se agudizam.
 
Fonte: O Primeiro de Janeiro em 16/05/2004

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