Dizer ao mundo o que sabemos de Deus
Por: Mário Pinto
1. É frequente, nos países tradicionalmente cristãos, invocar-se uma perda do sentido religioso; um divórcio, se não mesmo um conflito, entre a crescente mentalidade laicista e a Igreja Católica. Apesar do irradiante carisma apostólico do Papa João Paulo II, o homem mais querido e admirado no mundo inteiro, e apesar da indiscutível renovação que se tem verificado no seio da Igreja, designadamente em múltiplos novos movimentos e novas comunidades, continua a verificar-se uma distanciação entre tendências comportamentais dominantes e as verdades pregadas pela Igreja Católica.

A este propósito, faz-se correntemente uma pública acusação de incoerência aos católicos: a uns, porque são católicos «não praticantes»; e a outros, porque são «praticantes» incoerentes que dão contratestemunho. Na recente troca de cartas entre o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, e o Prof. Prado Coelho, no Diário de Notícias, uma das primeiras críticas de Prado Coelho foi precisamente a essa «Igreja pós-cristã», «algo de desossificado, que releva de um certo cálculo pragmático...»; a uma «religião por ementa, numa espécie de "bricolage", em que cada um pega no que lhe serve melhor, mas ninguém arrisca por inteiro».

Aqui está uma crítica que não é recusável, embora valha apenas em termos de generalidade sociológica. Com efeito, não faltam exemplos, como Madre Teresa de Calcutá ou o Padre Pio, que, no nosso tempo e à nossa vista, «arriscaram por inteiro». O século XX foi um século de milhões de mártires do catolicismo, como está indiscutivelmente documentado e publicado em livros vendidos aos milhões por todo o mundo. Estes mártires «arriscaram por inteiro». O já referido «renovamento», na Igreja do Vaticano II, é um dos mais espantosos de toda a história pós-constantiniana. Nunca, em todo o mundo, um Papa teve tão grande influência estritamente espiritual e moral como João Paulo II. Para além de muitos outros indicadores, os encontros inter-religiosos de Assis foram a prova desse grande prestígio mundial, reconhecido praticamente por todas as grandes religiões, reunidas numa ONU espiritual que já está na história e aprovou um compromisso para a paz.

Contudo é verdade que a larga mancha daquele catolicismo «bricolage», como lhe chamou Prado Coelho, ou catolicismo «patchwork», como lhe chamou o Cardeal de Viena numa recente conferência entre nós, não interpela as mentalidades típicas desta nossa civilização do consumismo, da sensualidade e da gratificação imediata, que não gosta de limites, de sacrifícios, nem de questionamentos normativos. Não deixa de ser impressionante (embora seja insatisfatório enquanto análise social de fenómenos que transcendem a realidade socialmente verificável) afirmar que: «os inquéritos sociológicos sobre os valores e as crenças dos europeus dizem-nos que se continua a acreditar em Deus, mas cada vez menos como pessoa e cada vez mais como abstracção» (Prado Coelho). Não sabemos se no passado foi muito diferente; mas era menos aparente ou socialmente consciente.

2. Porém, ao contrário do que escreve Prado Coelho («não há espírito trágico, porque não há dúvida nem agonia»), é vivida dentro da Igreja a legítima preocupação pelo nosso tempo. Esta preocupação integra, por um lado, uma consciência trágica de pecado (não esquecer os pedidos de perdão do Papa e os seus apelos à conversão); mas, por outro lado, integra uma esperança de renovação e levantamento, contrária à dúvida, contra toda a desesperança. «Ao largo!», é o lema do Papa na encíclica que dedicou ao advento do terceiro milénio. «Levantai-vos! Vamos!», é o título que dá ao recente segundo volume da sua biografia, tirado do Evangelho segundo S. Marcos (Mc 14,42). Não integra, isso não, porque seria contrário ao Espírito que integrasse, dúvida nem agonia (desespero).

Toda aquela preocupação exprime-se na urgência da «nova evangelização» - expressão de João Paulo II, que ficará entre as maiores profecias do seu pontificado. «Nova evangelização» primeiramente dos próprios evangelizadores. Para responder às necessidades da Igreja e do mundo de hoje, torna-se prioritária uma «segunda conversão» dos baptizados, na linha da mais genuína tradição da espiritualidade católica. E, para não ser apenas mais do mesmo, a «nova evangelização» terá de ser mais carismática, mistagógica e testemunhal, e menos simplesmente institucional e social (sociológica).

3. Tal exigência é para todos; mas sobrecarrega especialmente os pastores, curas de almas. A este propósito, há um problema que alguns levantam e não deve ser escondido por falsa submissão. Dou um exemplo. Há cerca de dez anos, dirigindo-se aos bispos de França, num livro intitulado «Le parti de Dieu, Lettre aux évêques», André Frossard, membro da Academia Francesa e grande personalidade da cultura e do jornalismo, escreveu:

«Bispos de França, vós só tendes um partido a tomar, o partido de Deus. Vós dais-nos, desde há algum tempo, um cristianismo desvitalizado, despojado dos seus mistérios e dos seus milagres, reduzido à sociologia e à história, e que está, para a religião, assim como o centrismo está para a política. Vós multiplicais as concessões à moda intelectual e os compromissos com o mundo; ora, o mundo que vive na angústia e na penúria espiritual, o mundo que teve esperanças e não tem senão desilusões, espera de vós as razões de acreditar, enquanto a vossa timidez não lhe fornece senão razões de duvidar. Vós falais cada vez menos como S. Paulo e cada vez mais como um senador centrista. Pelo que o Autor, que passou a sua vida a defender a Igreja, tem algumas observações a fazer-vos». «Reverendíssimos Padres: nunca o mundo esteve mais perturbado nos seus fundamentos, mais desordenado nos seus pensamentos, mais incerto nos seus caminhos e mais vazio de sentido. Peço-vos que ultrapasseis a estranha timidez que vos paralisa e digais ao mundo aquilo que sabeis de Deus».

4. O ABORTO ESTRANGEIRO. Um certo progressismo português grita que o barco do aborto não viola a lei portuguesa. Como se lhe desse cuidado essa violação! E aplaude que um barco estrangeiro venha recrutar clientes portugueses para os levar para o mar alto e aí os tratar de acordo com a lei da bandeira do barco. Pense-se no que isso pode dar com outros barcos para outros negócios - por exemplo: exploração infantil, exploração sexual, droga, manipulações genéticas, comércio de órgãos humanos, ou simples mão-de-obra barata. Não hão-de faltar bandeiras para todos os barcos. Quem brinca com as fronteiras portuguesas contra o crime de aborto não poderá depois defender o contrário para outros crimes. Leis portuguesas são leis portuguesas; não são ao gosto de cada um. Mas que precedente!

E ver como tantos média «embandeiram em arco»! Quarto poder. Independente.
 
Fonte: Público em 30/08/2004

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