A PAIXÃO DE CRISTO - Uma crítica cinematográfica
Juan Orellana
Mel Gibson abordou uma história já mil vezes contada em cinema, uma história conhecida até nos seus diálogos, as suas cenas, personagens e tramas secundárias, e sobe recreá-la e adapatá-la à moderna linguagem cinematográfica de tal forma que surpreende, causa impacto, emociona e inclusivé pode afectar o mais profundo do coração e da consciência do espectador.

Nos últimos trinta anos o cinema foi perdendo o medo a representar a violência, tornando-a cada vez mais explícita e chegando, finalmente, à complacência gratuita no mais repulsivo. Mel Gibson (MG) não faz nem uma coisa nem outra: narra um acontecimento crudelíssimo e fá-lo prescindindo das “elipses” e “foras de campo” que teríam sido obrigatórios noutras épocas. Mas se nada de gratúito houve na histórica Paixão de Cristo, na medida em que MG é fiel aos factos, tão pouco o há na sua versão.

É, portanto, uma película duríssima, mas não gratuíta. Fiel à historicidade dos acontecimentos, MG permite-se umas “licenças” — como todos os cienastas que levaram Jesus ao ecrân —, que são simplesmente deliciosas. Licenças que poderiam perfeitamente ter acontecido, mas das que não temos constância. Por exemplo, o tratamento que faz de Maria durante a Paixão é enormemente rico e teológico, e brinda-nos, entre outras, a maior cena —grandiosa mesmo — da película: Cristo cai por enésima vez com a Cruz às costas (não há três quedas, como na Via Sacra, mas muitas mais), e Maria, destroçada, que segue a comitiva por um caminho paralelo, não pode suportar mais o sufrimento do “seu menino” (quando vejam o filme enteder-me-ão) e lança-se sobre Ele, prostrado em terra, e diz-lhe: “Jesus, estou aquí contigo”, e Ele, tirando das fraquezas forças, fixa nela o seu olhar e diz: “Vês, Mãe, como eu faço novas todas as coisas?”. Se repararmos, em varias das vezes que Cristo cai, encontra forças para se erguer quando os seus olhos descobrem a sua Mãe.

Outra invenção preciosa que apareçe no filme é um flash back muito breve, em que Jesus brinca com Maria na sua carpintaria de Nazaré, enquanto inventa a mesa moderna. “Isso não tem futuro nenhum”, diz-lhe Maria. Não há mais momentos “simpáticos” no filme. Mas este não é o único flash back; há uma vintena deles que fazem alusão a episódios muito significativos da pregação — as Bem aventuranças, por exemplo — ou à Última Ceia. E, junto de Maria sempre aparecem João, o discípulo predilecto. E Madalena. Todos recordam o seu encontro com o Mestre. E, certamente, a interpretação de Caviezel deixa-nos provavelmente o Jesus mais credível, normal, natural, da história do cinema, longe dos misticismos e esquisitices de outras versões.

Entre os personagens secundários destacam uns interessantíssimos Pilatos e sua esposa, provavelmente os únicos personagens “humanos” de todo aquele gentio, com um epílogo antológico do diálogo sobre a verdade: “Reconheço a verdade sempre que ouço Jesus falar”, diz ela.

Desde o ponto de vista da “posta em cena”, o filme supõe uma novidade radical com respeito ao imaginário precedente. Face à ampulosidade operática de Franco Zefirelli, ou o naturalismo levi-straussiano de Pasolini, MG opta por um naturalismo histórico, dando à arquitectura e às multidões umas dimensões mais acordes com a realidade. A fotografia de Caleb Deschanel, bastante “tenebrista”, muito pictórica, reflecte “a noite escura” de Jesus, e do azul intenso da sequência do Horto das Oliveiras, passa ao fogo e ao sangue que invadem o resto do filme.

A direcção artística, o vestuário e, sobretudo, a maquiaje de Jim Caviezel são tremendamente convincentes, longe da pulcritude do peplum hollywoodesco e da pobreza das produções baratas de Rossellini ou Pasolini. No que respeita aos diálogos em arameu, latím e hebreu, longe de espantar, resultam num aliciante do filme e dão-lhe um certo ar documental.

O balanço é, pois, excelente. Mas não esqueçamos que é tanta a sua dureza, que o filme não é apropriada para menores, nem para maiores com determinados umbrais de sensibilidade.

Tradução: Manuel Martinez
 
Fonte: Aceprensa em 03/03/2004

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