Estavamos todos muito distraídos!
Por Pe. Jorge Margarido Correia
Eng. Mecânico. Doutor em Teologia
É a impressão que me dá ao ver algumas das reacções ao filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”.

A vida de Cristo era vagamente relacionada com umas andanças pelas terras da palestina, há já muitos séculos: uns milagres (se possível explicados a partir de fenómenos naturais), umas palavras simpáticas sobre sermos todos irmãos (mas sem levar muito a sério a Filiação a que elas remetem), uma estadia conflituosa em Jerusalém (com uns sujeitos esquisitos chamados fariseus, nome que por vezes chamávamos a quem nos incomodava com sermões morais), que culmina numa Última Ceia que sabíamos estar mais ou menos relacionada com as Missas celebradas ao longo dos séculos; e depois, uns episódios desagradáveis com as autoridades de então (que nos serviam para pensar que era genuinamente cristã qualquer atitude de não aceitação das autoridades actuais que nos incomodassem). Por fim, a cena da crucificação que imaginávamos a partir de crucifixos “modernos”, normalmente sem cruz, sem feridas, de preferênçia com um Cristo de bom design, já ressuscitado (embora aceitando que afinal a sua ressurreição tinha sido uma sublimação espiritual dos pobres discípulos, desanimados com a morte do Mestre).

Depois vieram as várias “Vidas de Cristo” no cinema, umas mais “hollywoodescas”, outras com interpretações muito pessoais ou ideológicas dos seus autores, todas muito “politicamente correctas” segundo a moda de momento, no mínimo bizarras, quando não blasfemas, mas que obviamente tínhamos que aceitar como manifestações artísticas legítimas, em nome da liberdade de expressão.

De repente, rebentou a bomba! Um actor e realizador conhecido, que tinha cometido a provocação de se converter ao catolicismo, estava a preparar uma história da Paixão que tinha a característica suspeita de pretender ser fiel à narração evangélica (a única, aliás que passou por todos os crivos da ciência histórica ao longo dos séculos). E começou a campanha de desinformação. Ainda ninguém tinha visto uma única imagem e já se sabia que era uma obra violenta, anti-semítica, anti-Vaticano II, anti-moderna, sei lá que mais.

Agora, depois do filme ser visto, fica apenas um facto: o filme é duro, porque relata uma realidade duríssima. Tão dura que o biblista M. J. Lagrange já tinha escrito há muitos anos que “os primeiros cristãos tinham horror a representar Cristo na cruz. Tinham visto com os seus olhos aqueles pobres corpos completamente nus, fixados num tosco pau e com uma barra transversal em forma de T, com as mãos e os pés cravados a esse patíbulo, o corpo abatido pelo próprio peso e a cabeça pendente; os cães, atraídos pelo cheiro de sangue, mordendo os pés; os abutres, esvoaçando sobre esse campo de carne, e o justiçado, consumido pelas torturas e abrasado pela sede, clamando pela morte com gritos profundos e sem voz. Era o suplício dos escravos e dos bandidos”. O próprio Cícero, afirmava: “Que um cidadão romano seja atado, é um abuso; que seja golpeado, é um delito; que se lhe dê morte é quase um parricídio; que direi então, se fôr suspenso da cruz? A um facto tão horrível não se lhe pode dar um apelativo suficientemente adequado”.

O que é totalmente novo no caso de Cristo, é que ele estava alí por Amor por nós, por causa dos nossos pecados, e para ressuscitar e nos dar a vida de Filhos de Deus. Por isso dizia S. Paulo: “nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas, para os que são chamados, quer dos judeus, quer dos gregos, é Cristo força de Deus e sabedoria de Deus”. Talvez seja isto que nos inquieta mais. E também porque Mel Gibson o faz com um rigor e um amor que o levou a realizar provavelmente um dos mais impressionantes filmes de sempre, como aliás o vão dizendo os conhecedores da arte… que não andam distraídos.
 
Fonte: APMV em 22/03/2004

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